Uma pesquisa conduzida pelo Laboratório de Cognição Animal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelou que cães domésticos brasileiros são capazes de compreender e reagir de forma consistente a até 214 palavras em português. O estudo, publicado na revista Animal Cognition, avaliou 500 cães de 32 raças diferentes ao longo de 14 meses, utilizando ressonância magnética funcional, rastreamento ocular e testes comportamentais padronizados.

As palavras mais universalmente reconhecidas entre os cães avaliados foram, em ordem: "passear" (reconhecida por 98,4% dos cães), "comida" (97,8%), "não" (96,1%), "banho" (94,7% — com reação predominantemente negativa), "veterinário" (91,3% — com sinais de ansiedade em 89% dos casos) e "petisco" (90,2%). Surpreendentemente, 67% dos cães também demonstraram reconhecer seus próprios nomes em contextos variados.

"O que mais nos surpreendeu foi a sofisticação da compreensão. Não é apenas uma reação ao tom de voz. Quando dizemos 'passear' com tom neutro, com tom triste ou com tom de raiva, o cão identifica a palavra e reage ao significado, independentemente da entonação. Isso indica processamento linguístico genuíno." — Dra. Helena Figueiredo, neurocientista veterinária e coordenadora do estudo na UFMG

Vira-latas lideram o ranking

O dado mais inesperado do estudo foi a liderança absoluta dos cães sem raça definida (SRD) — popularmente conhecidos como vira-latas — no ranking de compreensão vocabular. Enquanto a média geral foi de 147 palavras, os vira-latas reconheceram em média 189 palavras, chegando ao recorde de 214 com uma cadela chamada Pipoca, de 7 anos, resgatada das ruas de Belo Horizonte. Raças puras como Golden Retriever (162 palavras), Border Collie (158) e Labrador (154) ficaram significativamente atrás.

Os pesquisadores atribuem o desempenho superior dos vira-latas à pressão evolutiva. "Cães de rua precisaram desenvolver maior capacidade de comunicação com humanos para sobreviver. A seleção natural favoreceu os que entendiam melhor o que as pessoas diziam", explicou a Dra. Figueiredo.

Palavras "proibidas"

O estudo também identificou um fenômeno curioso: muitos tutores relataram ter desenvolvido códigos e eufemismos para evitar que seus cães entendessem certas palavras. O caso mais comum é o uso da soletração — "vamos ao V-E-T-E-R-I-N-Á-R-I-O" — para evitar reações de pânico. No entanto, os testes mostraram que 23% dos cães já haviam aprendido a decodificar as palavras soletradas, forçando seus tutores a inventar termos cada vez mais elaborados.

A pesquisa será apresentada no Congresso Mundial de Cognição Animal, em Viena, em abril, e já despertou o interesse de laboratórios em seis países para replicar os testes com cães de outras nacionalidades linguísticas.

*Com informações da UFMG, Animal Cognition e Conselho Federal de Medicina Veterinária