A Universidade de Cambridge publicou nesta segunda-feira (23) os resultados do mais longo e abrangente estudo já realizado sobre os efeitos do café no cérebro humano. A pesquisa, conduzida ao longo de 20 anos com 180 mil participantes de 22 países, concluiu que o consumo regular de três xícaras de café por dia reduz o risco de desenvolver doença de Alzheimer em 65%.

O estudo, publicado simultaneamente na New England Journal of Medicine e na Nature Neuroscience, identificou dois compostos presentes no café — a trigonelina e um polifenol batizado de cafeneurona — que atuam diretamente na proteção dos neurônios contra o acúmulo de proteínas beta-amiloide e tau, os dois principais marcadores biológicos do Alzheimer.

"Após duas décadas de pesquisa, podemos afirmar com alto grau de confiança que o café é o neuroprotetor mais acessível e eficaz que conhecemos. Três xícaras por dia funcionam como um escudo bioquímico para o cérebro." — Prof. Sir David Carmichael, neurocientista e coordenador do estudo em Cambridge

Brasileiros: os mais protegidos

Um dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi o desempenho dos voluntários brasileiros no estudo. O Brasil, maior consumidor per capita de café do mundo, apresentou os menores índices de progressão para Alzheimer entre todos os países analisados. Segundo o estudo, o hábito brasileiro de consumir café coado — método de preparo que preserva maior concentração de cafeneurona — é um dos fatores que explicam a diferença.

A Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) comemorou os resultados e anunciou uma campanha nacional com o slogan "Café: bom pro coração, melhor ainda pro cérebro". O consumo de café no Brasil já é de aproximadamente 6,5 kg por pessoa ao ano, quase o dobro da média mundial.

Ressalvas dos pesquisadores

Os autores do estudo fazem ressalvas importantes: os benefícios foram observados com café puro, sem adição excessiva de açúcar ou adoçantes artificiais. Além disso, o consumo acima de cinco xícaras diárias não apresentou benefícios adicionais e, em alguns casos, foi associado a aumento de ansiedade e distúrbios do sono. "Três xícaras é o ponto ideal. Mais do que isso, os riscos começam a superar os benefícios", alertou o Prof. Carmichael.

O Ministério da Saúde brasileiro informou que vai avaliar os resultados para possível inclusão de recomendações sobre consumo moderado de café nas diretrizes de prevenção de doenças neurodegenerativas.

*Com informações de Cambridge, New England Journal of Medicine e ABIC